Olá!
Fãs de livros com suspense, aventura, ciência e embate de ideologias, se aproximem: venham dar uma conferida na resenha de Fortaleza Digital!










Na era da tecnologia, o mundo se tornou menor. A distância da comunicação se resume a um clique. Com um seriado de números, bombas podem ser detonadas. Governos desmascarados. Multinacionais levadas à decadência na Bolsa de Valores. E por isso, nações investem milhões para proteger seus segredos. Criado pela agência NSA (Agência de Segurança Nacional), o supercomputador TRANSLTR,  é o responsável por decodificar diariamente milhares de códigos de potenciais inimigos do país - na maior parte das vezes. Nenhum código já formulado podia detê-lo, até que uma ameaça, vinda de um dos engenheiros originais da peça, agora jurado de vingança contra agência, penetra o sistema e pode significar um vazamento de informações em escala global. Então, tendo que interromper os planos com o noivo, Susan Fletcher, uma das mais competentes criptógrafas do país, é chamada para apaziguar a situação antes que seja tarde demais.

Informações:
ISBN: 9788575421611 | Publicado originalmente em: 1998| Páginas: 336 | Editora: Sextante | Título original: Digital Fortresss 



Um governo que espiona. Espiona seus inimigos; espiona seus aliados; e espiona, por mais chocante que pareça, seus próprios cidadãos. Isso não é nenhuma novidade, na verdade; espionagem sempre existiu. Pergunte à Inquisição. O que mudou foi o modo de executá-la. A tecnologia se desenvolveu e criou atalhos - e se preferir, links. Corredores, em prédios ocultos, repletos de computadores de última geração, protegendo preciosos bancos de dados, guardando desde a identidade secreta de espiões espalhados pelo globo até o código de ativação de mísseis.

Quando se pensa na trama de Fortaleza Digital, é impossível não lembrar do caso de Edward Snowden, o ex-funcionário da NSA que trouxe à tona para o público a existência de programas de vigilância global - com o Brasil na lista, inclusive -, levando-o a ser exilado e receber diversas ameaças de morte.  Mas aí que está o curioso da associação: o caso de Snowden aconteceu em 2013. Dan Brown publicou Fortaleza Digital em 1998.

Teria então Dan Brown feito, despropositadamente (ou não), de certa forma uma previsão de um dos efeitos do avanço da tecnologia - com assim, da espionagem - na sociedade?


Questionamentos à parte, voltemos então para a trama em si.

No livro de estreia do autor best-seller, Dan Brown, diferente da maioria dos seus livros, não acompanhamos o famoso professor de Simbologia Robert Lagdon e sim Susan Fletcher. Uma mulher altamente profissional e capacitada, considerada pelo seu chefe, Strathmore, uma das peças mais importantes na equipe de criptógrafos da NSA, todos, por regra, filtrados minuciosamente desde a faculdade para o ofício. Igualmente contente com sua vida pessoal, Susan preparava-se para uma viagem com o noivo, o professor linguístico David Becker, até que ambos são obrigados a adiá-la para atender à chamadas urgentes do trabalho, não tão distintas assim.

Quase ao mesmo tempo em que a criptógrafa foi convocada à comparecer na sede da NSA para desvendar um misterioso algoritmo que estava fazendo o supercomputador TRANSLTR, tentava decodificar sem sucesso há mais de 15 horas, David desembarcava na Sevilla, na Espanha, quando, segundo ao que dissera à noiva, deveria estar no Departamento de Línguas Modernas da Universidade Georgetown. Proibido de contar o verdade à Susan, o professor havia aceitado participar de uma missão de busca, à pedido do chefe dela, à chave que desbloquearia o algoritmo.

Acontece que a chave para o algoritmo, uma pequena sequência numeral, estava gravada no anel de Ensei Tankado, cuja a morte causara o início de todo aquela alvoroço. 

Filho de uma sobrevivente do ataque nuclear à Hiroshima, sofreu deformações em todo corpo ainda na barriga da mãe - que falece durante o parto - em consequência à radioatividade a que foi exposto, fazendo com que desenvolvesse por isso profundos ressentimentos sobre o governo estadunidense. Anos depois, tendo se tornado um criptógrafo excepcional e em paz consigo mesmo, o rancor não estava mais tão intenso quanto antes; aceitou um emprego na NSA, depois de muita insistência da agência, que buscava manter junto à si todos os melhores criptógrafos do mundo. Não durou muito para que essa breve confiança fosse destruída quando Tankado descobre para que fins se destina um dos seus projetos para a agência, o TRANSLTR; à quebra total da privacidade. Isto mesmo para aqueles que não oferecessem nenhum tipo de provável ameaça ao país, ou seja, apenas civis. Inconformado, ameaça tornar a descoberta pública, mas é barrado por uma série de acusações que a NSA espalha para tirar sua credibilidade.

Prepara então um plano: ou a NSA admitiria oficialmente a existência do TRANSLTR ou ele iria liberar na rede para download gratuito seu mais novo programa de encriptação, o Fortaleza Digital, e dar à qualquer um com o mínimo de conhecimento informático a possibilidade de desviar-se das investidas da agência. Sendo assim não demora-se a surgir pessoas interessadas nessa tecnologia; desde políticos até empresários e terroristas. No sol quente de Sevilla, Ensei Tankado é friamente assassinado, mas ainda, astutamente, consegue impedir num último esforço que a chave do Fortaleza Digital caísse nas mãos erradas.  

E começa-se uma corrida desesperada em busca de uma das armas mais perigosas já criadas na era da comunicação.
Com um tema atual e muito relevante, o autor moldou seu livro sob a mesma base que mais tarde usaria em praticamente todas as suas obras. Há uma fórmula na qual ele se agarra? Sim, é perceptível. Temos cenas de perseguição, carregadas de adrenalina, líderes de moral ambígua e obcecada, personagens indefiníveis - de que lado estavam, afinal? - e um romance de fundo minimizado, não tomando o espaço total do espetáculo mas sendo de suma importância para o final.

São as nuances, as diferenças temáticas de um livro para outro, e a pesquisa intensa verificada em cada um deles, pela riqueza de informações, que tornam, pelo menos para mim, uma leitura agradável com uma grande carga de aprendizado. Se em "Inferno" aprendemos mais sobre Dante, o Renascimento e superpopulação, e em "Anjos e Demônios" sobre descobertas extraordinárias da física quântica e a organização política do Vaticano, em "Fortaleza Digital" nos ousamos a nos questionar sobre as consequências do acesso, sem limites, à informações em escala macro e micro.

Dan Brown posiciona com precisão, em terceira pessoa, a perspectiva de Susan. Muitos autores e autoras encontram muitas vezes dificuldade em colocar-se sob o ponto de vista de um personagem do sexo oposto de forma que se torne convencível, mas para Dan Brown, pelo menos em "Fortaleza Digital", soou-me ter sido uma tarefa alcançada. Constrói uma personagem feminina forte e verossímil - dando a ela a voz merecida, como uma das profissionais mais requisitadas da agência. Podemos dividir a narrativa adotada no livro sob dois pontos de vistas principais: a de Susan, na NSA, cercada por um clima de urgência e desconfiança, presa numa guerra de intelectos entre ela e o legado deixado por Tankado e a de David, na Espanha, numa busca recheada de ação, o tempo inteiro, e reviravoltas a cada capítulo. O medo sobre o destino destes personagens é uma presença constante e a cada capítulo, nos frustramos ou comemoramos com eles.

Personagens que também ganham, em determinados momentos, um bom destaque, são Strathmore, o perfeccionista comandante da equipe de criptografia; Midge, funcionária de alto-escalão da organização, outra personagem feminina bem representada, ainda que brevemente, mas de papel ímpar para o desenvolvimento da história; Greg Hale, um perspicaz criptógrafo que logo levanta suspeitas devido à sua índole duvidosa e seu histórico de atividades ilegais; entre outros.


"- Quis custodiet ipsos custodes?

Susan olhou para ele, sem entender.

- Latim. Das Sátiras, de Juvenal. Significa 'Quem guardará os guardiões?'.

- Não entendo. Como assim "guardar os guardiões"?
- Sim. Se nós agimos como guardiões da sociedade, então quem irá nos vigiar para ter certeza que não somos perigosos?"
Pág 106, "Fortaleza Digital".


Aspectos matemáticos e linguísticos são abordados naturalmente, de forma que fortalecem mais o realismo dentro da obra. Há termos que só poderiam soar imediatamente reconhecíveis à, de fato, criptógrafos, mas quanto à isso Dan Brown preenche as lacunas oferecendo explicações sobre cada uma delas e a forma em que é executada. Muitas curiosidades históricas também se encaixam, mais para o começo do livro, nessa montagem de explicações ao leitor.

Tendo eu lido mais outros dois livros dele, dois mais recentes, a diferença entre eles e seu livro de estreia é impossível de igniorar. Apesar de que a fórmula básica de suas histórias não ter mudado muito, sem dúvida ele aperfeiçoou a caracterização dos seus moldes, tornando-os mais complexos e fechando ciclos. Um, por exemplo, que nesse livro poderia ter sido ou descartado, ou trabalhado com mais profundidade, foi a participação do empresário Tokugen Numataka no enredo, que prometia, desde sua primeira aparição, algum tipo de envolvimento maior no plot principal ou em alguma reviravolta, ao final de tudo pareceu mais como um apoio decorativo para sustentar um peso emocional de um dos personagens (não citarei qual).

No final das contas, não é o melhor livro já produzido pelo autor, mas é um que eu não me arrependo de ter em minha estante; ensinou-me uma lição. Uma lição sobre o valor dos segredos, o valor da segurança e, sobretudo, o valor da verdade.




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