Olá!
Essa resenha aqui é de um nacional, um livro cheio de sedução, seres sobrenaturais e presas. Vamos conferir?




Depois de meses presa em cativeiro, Alice Laylil consegue escapar das mãos do seu misterioso sequestrador e voltar para o Rio de Janeiro. Mas as coisas estão longe de ser como antes: memórias bagunçadas, o corpo lentamente mudando e mais que tudo, uma sede insaciável. É então que é afrontada com a verdade: havia se tornado uma vampira, uma criatura da noite sedenta por energia vital, que podia, como descobre, vir das mais inesperadas fontes. Formando alianças, encontrando novos amores e fugindo das lembranças que atormentam seu passado, ela vai se adaptando a nova vida, com a ajuda da nova amiga e também vampira, Carol.




Escapando do cativeiro onde era mantida por um homem cruel e misterioso, Alice Laylil vai parar na casa de um ex-colega dos tempos de escola, Carlos, que acolhe carinhosamente. Não demora para que seu comportamento comece a assustar todos à sua volta: sua resistência a alimentar-se, sua inquietação quando exposta ao sol e seu desejo cada vez mais ardentes de fincar as presas, agora afiadas, nas veias do amigo.  Memórias misturam-se sem parar, e, tentando proteger a todos e a si mesma, ela se afasta. Depois de um tempo de adaptação, acaba por conhecer Carol, que a apresenta a toda uma nova perspectiva sobre sua nova condição, a de uma vampira recém-transformada, vagueando entre clubes, experimentado tudo ao seu alcance. No entanto o passado está na espreita, o homem com os olhos terríveis ainda assombra seus sonhos, ao mesmo passo que clãs antigos de vampiros começam a se interessar pela sua existência e sua estranha conexão com Lilith, a mãe infernal de todos os Íncubos e Súcubos. 

Para começar, a leitura acabou sendo arrastada, apesar de ser um livro bem fino.

Há uma excessividade de vícios de linguagem que prejudicam a narrativa, como as expressões como "cair na lábia", generalizações como "qualquer mulher"/"qualquer homem" para designar fetiches sexuais e algumas mesmo carregadas de um pesado fundo pejorativo, como "não sou tuas nega". E estou dizendo que isso não é possível dentro da literatura, é proibido? Claro que não é proibido! Há formas de se utilizar isso de forma engradecedora, reflexiva, de forma a marcar a faceta falha humana, seus defeitos, sua intolerância, só que, neste livro, não é o objetivo, até mesmo pelo tom literário que é adotado: a trama em si é extremamente maniqueísta e controversa. Ao mesmo tempo que os vampiros desse universo atacam casas de tráfico, aceitam tranquilamente como forma de adquirir dinheiro fazer serviços para políticos corruptos, como, citando diretamente do texto, "...desde dar sumiço e sustos em rivais até favores 'sexuais' ou certos favorecimentos ao fornecemos canal direto com o inferno para que eles façam pactos com anjos caídos". Os frutos são destruídos e a raiz do problema permanece firme, fincada na terra e protegida.


O mesmo vale para a cena do ataque à clínica de aborto, ministrada da mesma forma simplista e abrupta. A autora tem todo o direito de mostrar traços da suas opiniões políticas e ideológicas nos seus livros, mas o modo escolhido para representar  foi desastroso, e até mesmo a tentativa de balancear a situação, dando a uma das personagens uma opinião oposta à executada no ato do ataque, soou artificial, em uma fala curtíssima. Torna-se também inverossímil com enredo do livro: por que uma sociedade vampírica extremamente centrada em si mesma (como descrita no livro)  haveria de sair pelas ruas para "fazer justiça" à sua maneira, se expondo amplamente para a população, se se consideram abertamente uma espécie totalmente à parte da humana?

E no campo das personagens, o desapontamento se repete. Tanto Alice, a protagonista, como os personagens secundários da história são trabalhados de forma rasa. Para Alice, é mais justificável todo seu encantamento à nova vida vampiresca, regada à prazeres e regalias todas as noites, mas quanto aos outros? Personagens como Carol, a personagem secundária com mais relevância na história, servindo como mentora da recém-transformada, agindo de forma fútil e deslumbrada? A autora faz uma promessa de personagens complexos, intrigantes, recheados de sabedoria acumuladas de anos de existência? Onde estão eles? É tudo preto-no-branco.

A despeito de todas essas características, pode-se citar aqui que há um notável esforço para manter-se fiel a lenda original dos vampiros, fazendo até uma pequena brincadeira de comparação, dentro de um dos diálogos, com a Saga Crepúsculo (esta mais conhecida pela modificação da lenda original). São vampiros que queimam em contato direto com o sol, que intoxicam-se com sangue de membros de instituições religiosas, alimentam-se de sangue e até mesmo de energia sexual, aspecto pouco conhecido do vampirismo na cultura pop - até onde eu sei. O único ponto não comentado, solto no ar, foi a utilização palavra "Deus", que, segundo muitas lendas, faz com a língua da criatura da noite se queime ao tentar pronunciá-la - tendo isto em consideração porque há mais de uma cena em que os vampiros dizem "Ai meu Deus", mesmo que como uma expressão popular. Acompanhando o elenco de presas, apresentam-se uma variedade de outros seres sobrenaturais, tais como os íncubos e súcubos - estes de especial influência na trama -, jinnis (anjos caídos), bruxos, todos com suas funções devidamente explicadas e situadas nesse sistema. Muitas conexões com o outra série da autora (A Herança de Lilith) são mencionadas, visto que as protagonistas de cada um (Alice e Esther) eram irmãs, separadas pela guerra iniciada entre o Céu e o Inferno. Tudo isto situado aqui mesmo, Brasil, no Rio de Janeiro.

Não tendo espaço para discutir-se todas as inverosimilhanças nesta resenha, me atenho a ponderar sobre a carência de alguns pontos que poderiam ter sido enfatizados: que se explorasse mais a habilidade de extrair memórias a partir do sangue das vítimas, a histórias de fundo dos personagens secundários, as motivações, um foco amoroso mais conciso.

Quando criei esse blog, me dediquei a proposta de fazer análises e dar minha opinião com sinceridade, por isso, tenho que dizer: não é um livro que eu recomende. Para mim, esse é um dos casos que precisariam passar por uma reformulação total de sua essência. No entanto, é literatura nacional, então se você se interessar pela premissa e quiser dar uma chance, tente sim: os autores nacionais realmente estão precisando de todo apoio. Até para se você quiser dar, também, seu feedback para a autora. Quanto à diagramação, a Madras Teen fez um trabalho excelente na diagramação, com a capa por Roberto Klisman, o que me fez, em primeiro lugar, querer me arriscar nessa leitura.





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