Oi!

Encontrei esse livro numa espécie de "sebo" sendo promovido em um dos shoppings, por um preço camarada de R$15, não sabendo nada sobre o autor ou até mesmo da natureza da história em si (pela capa e o título, poderia ser tanto um romance do gênero hot quanto uma trama investigativa!...).  Fui pela sorte, esperando ter uma surpresa agradável, como já aconteceu com outros livros "sortidos" do meu histórico de leitura.












Numa pacífica ilha do Mediterrâneo, Marco Timoleon acorda de um pesadelo. Está velho e cansado, sabe disso, mas há certas coisas que não iriam deixá-lo dormir de forma alguma. Entre elas, a lembrança de sua filha, que logo iria chegar junto com os outros convidados, para sua festa de aniversário, planejada minuciosamente por ele. Mas de todas as coisas que Marco, "O Turco", havia sido na vida - entre milionário viciado, amante fugaz, e até mesmo imigrante pobretão -, certamente "previsível" não era uma delas. Ao lado do seu médico pessoal e melhor amigo, dr.Patrikios, e o desconfiado inglês,  Ian Foster, que havia ganho a oportunidade de observar de perto o homem preferido dos tabloides, para assim escrever uma biografia detalhada sobre ele de publicação incerta, o anfitrião promete uma noite inesquecível - mais para alguns do que para outros. Num romance regado de lembranças, atravessando quase todo o século XX, descobrimos quem é, afinal, o homem por trás de títulos, ternos caros e vinhos amargos.


A leitura começa quando nos deparamos com a figura angustiada do empresário Marco Timoleon. Seu corpo, já frágil pela idade, está protegido por sua vila suntuosa construída sob uma ilha do Mediterrâneo e um batalhão de empregados sempre à seus dispor, ainda que o espírito não; este flutua pelos mares revoltosos onde, há não muitos anos atrás, um acidente aéreo levou seu filho e herdeiro, Daniel. Não só essa lembrança que arrisca a sanidade e o já fraco coração do idoso que cultivou maus hábitos a vida inteira cheia de excessos, mas toda a sua existência é relembrada através das páginas do livro.

Alternando entre o presente e o passado da narrativa, recebemos o que se poderia chamar de "fragmentos" da vida de Marco Timoleon, que, apesar de detalhados e bem descritos, ainda pairam sobre uma sombra de dúvida, uma vez que uma das características da história é o questionamento do gênero biográfico. Característica essa que para mim não apareceu tão clara até que, pesquisando para a resenha, descobri que grande parte do livro foi abertamente baseada na vida de Aristóteles Onassis, um magnata grego (quando a Turquia ainda era território da Grécia) que construiu um grande império empresarial durante o século 20. Agora vejo conhecer esse detalhe poderia ter engrandecido muito mais a leitura, uma vez que desde as primeiras linhas a intenção do autor fosse plenamente clara - crítica que cabe a editora.

Portanto, se levanta a pergunta do quanto Panos Karnezis extraiu das informações que conhecia sobre a vida de Onassis para a formulação do seu romance. Desde sua origem em Izimir, na Turquia, passando pela sua imigração para a Argentina, trabalhando como telefonista, até as complicações do seu casamento arruinado no auge da sua carreira, vivendo em Londres, o que levou sua primeira esposa, Miranda -  a representação de Athina Livanos - ao suposto suicídio? O quão extensa então seria a semelhança de Olivia Andersen, a segunda esposa de Marco, com Jacqueline Kennedy? Quantos eventos foram reposicionados, como seu romance com uma cantora de ópera Flor Alcorta/Maria Callas?


É fascinante refletir sobre o limite aparentemente tênue entre a realidade e a ficção, duas vidas se entrelaçando, desconhecendo o que faz parte da imaginação do autor e o que é fruto de uma minuciosa pesquisa. Separando agora realidade da ficção, nos voltemos para a roda motora do romance, o conflito central: na espera pela chegada da sua filha, Sofia e dos seus convidados, Marco faz preparativos. Enquanto a maior parte deles se resume a dar ordens para a cozinha da mansão preparar dos mais requintados pratos e garçons se alinhando para servirem a noite inteira champagne e vinho branco, outros envolvem uma sinistra sala vazia de luz opaca, repleta de utensílios cirúrgicos e enfermeiras mascaradas. Naquela noite, Marco iria se certificar que Sofia nunca viesse a dar a luz à criança que carregava em seu ventre.

Mas o que levaria um homem a não desejar a existência do seu próprio neto? O que paira no encoberto e abstrato passado da família Timoleon?...

O narrador, em terceira pessoa, não esconde informações, mas declaradamente as omite, pesando-as sobre os ombros do personagem Ian Foster, o então biógrafo vive às custas do seu biografado numa espécie de acordo. O que me fez pensar então, se o o livro não poderia ter atingido um ponto de complexidade maior se não tivesse sido narrado em primeira pessoa, pelo olhar do biógrafo,  para explorar ainda mais a incerteza dos fatos com o medo pessoal do personagem - de não receber a autorização para publicar a obra. E repare que não sou a maior fã de de narrativas em primeira pessoa, mas essa aqui teria uma chance grande de ser uma das exceções.

Sendo um livro carregado de personagens excêntricos, demonstrações de suas peculiaridades não faltam: desde a obsessão por livros clássicos do pai de Marco até o vício em quebra-cabeças da sua filha, assim como seu gosto por acordar toda amanhã numa cidade diferente, com um estranho ao seu lado. Não ocasionalmente o autor também faz uma sátira às crenças supersticiosas do protagonista, permanecendo (o narrador), no campo da espiritualidade, mais distante e menos romântico dos ideais controversos de Marco.

Para leitores de Sidney Sheldon, a escrita desse livro pode se fazer bem próxima, assim como a temática de uma escalada social otimista até uma queda melancólica, carecendo do dinamismo do primeiro para torná-la mais interessante. O protagonista é revestido em triunfos pessoais, doses de um caráter duvidoso  e, claro, excessos e mais excessos. Levei a leitura num patamar contido, esperando o melhor para o final, o que me frustrou um pouco, já que a conclusão devia ser a cereja no topo do "bolo de aniversário". A forma com que a história é contada, selecionando os momentos certos pars serem apresentados em determinadas situações e mais tarde, desvendados mais à fundo, é a melhor parte do livro. O único problema foi a preparação em demasia para pouca festa.

Ao final, pode ser que você não encontre mais com tanta facilidade esse exemplar, mas se achar, talvez se sinta tentado(a) a descobrir mais sobre a jornada do herói não tão fictício, Marco Timoleon.





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