No YouTube, com o canal "Sente e Escreva" o autor nacional de romances policiais e suspenses, Leonardo Barros, juntamente a outros autores muito presentes nas redes sociais - como Janaina Rico, Landulfo Almeida, Marcelo Hipólito - e muitos convidados especiais da área editorial, discutem sobre a escrita e a literatura de forma bem humorada. Por ter assistido alguns dos seus vídeos, logo reconheci-o quando ele abriu uma seleção de blogs parceiros. Agora trago para vocês minha resenha quentinha de seu mais recente lançamento!




Em Fortaleza, a freira Bianca é encontrada morta dentro do seu quarto, na escola onde trabalhava como professora. Mais que isso, para o choque geral, o principal suspeito é um aluno, seu suposto amante, Danilo.

Alheia à esse acontecimento, Alice Vegas vive a cada dia atormentada por estranhas premonições que a perseguem desde muito nova, o que tornou-a uma adulta perturbada e amedrontada com o mundo ao seu redor. Por mais que ela fuja de seu dom, ele sempre volta, trazendo revelações conflitantes. E dessa vez, durante uma festa à fantasia, o que ela vê é um pouco mais assombroso: o assassinato de uma ex-colega de faculdade, um desafeto seu de longa data, pelas mãos de um homem fantasiado de diabo e que ninguém parece reconhecer.

As pessoas atribuem o assassinato à Danilo, acreditando que ele é um serial killer, repetindo um padrão que se iniciou com a freira Bianca e replicou em Vivian, que no dia do assassinato, usava uma fantasia insinuante que lhe rendeu o apelido de "Freira Nua" . Mas Alice recusa-se a crer nisso, uma vez que a pessoa que ela viu estrangulando foge completamente da descrição do jovem que está sendo acusando por ambos os crimes. Importunada por esse pensamento, ela inicia uma investigação solitária, já que a polícia considera seu testemunho duvidoso, correndo o risco de ser taxada como "louca", ou pior, como cúmplice do crime.


No romance policial confeccionado por Leonardo Barros, os detalhes e pistas para desenrolar a trama são nos dados desde as primeiras páginas. Tendo Alice Vegas como protagonista, nome inclusive que que faz referência à ideia da loucura, que na verdade nada mais é que uma pesperctiva diferente da realidade, da personagem atemporal de Lewis Caroll, "Alice no País das Maravilhas", o leitor é introduzido aos detalhes do crime cometido, aquele que dá título ao livro. Além de Alice, outra peça fundamental é a visão de coadjuvantes, como as dos investigadores Matias e Felipe logo no início. Uns que sabem mais sobre o ocorrido que ela - e fingem que não -, outros menos, e outros ainda que pensam que sabem mais, negligenciando o relato da jovem e pagam caro por isso.

Desde o princípio é notável que Alice é uma menina extremamente transtornada. Ao longo da vida, procurou dos mais diversos especialistas e terapeutas, e nenhum deles jamais acreditou no seu dom sobrenatural de enxergar acontecimentos antes que estes se concretizassem. E ainda menos pela particularidade específica com que ela consegue atingir esses presságios: somente durante um orgasmo. Característica inclusive que fez com que muitos relacionamentos seus se desmanchassem rapidamente, fazendo dela uma mulher reclusa e solitária. Foi num desses relacionamentos, inclusive, que ela desenvolveu sua inimizade por Vivian, uma jovem mulher sedutora com quem seu namorado da faculdade a traiu. Mas tudo muda quando ela se torna a única "testemunha" - tendo visto através de um presságio - do assassinato da ex-colega, o que a força mesmo a mentir para a polícia e procurar evidências com a família da vítima para provar a todos - e a si mesma - que não é louca.


Como personagem, Alice, mesmo na sua essência cheia de fragilidades pela vida sendo desacreditada, não demora a tomar decisões, algo que considerei uma boa característica para a protagonista dentro do meio e da situação, em que cada segundo é precioso para se descobrir a verdade. As partes mais desconfortáveis nas partes com ela no centro, no entanto, eram quando o narrador descrevia transcrevia exatamente o pensamento da personagem, que soassa às vezes artificial, o que espero que mude para os próximos volumes, principalmente depois do final, em que Alice amadurece consideravelmente. Além disso, com ela o autor flerta brevemente também com a ideia do ponto de vista não confiável, mesmo em terceira pessoa, o que ajuda a sacudir mais o clima de suspense da obra.

O livro é recheado de reviravoltas sobre os detalhes do crime, tendo os médicos-legistas com presenças mais influentes na investigação que os próprios investigadores do caso, comandados por um delegado que não mede quase ou nenhum esforço para fazer valer a justiça que protegem. Creio também que muita formação médica do autor contribuiu bastante para as descrições, criando imagens nítidas e explicações de simples entendimento para o leitor. Vários atributos servem para classificar a obra como detentora de conteúdo maduro: abusos sexuais, cenas de violência explícita, relações sexuais, tortura de portadores de deficiências mentais, etc. Nas primeiras linhas da sua dedicatória, inclusive, o autor reserva às vítimas de crimes sexuais e seus familiares.

Quanto a narrativa, em geral, é direta e concisa, deixando-se passar algumas vezes por alguns devaneios dos próprios personagens, comprovando o desejo do autor de afirmar-lhes suas humanidades de forma mais realista. Senti falta de uma certa fluidez no texto, admito, embora isso não tenha sido na obra toda; em cenas específicas, principalmente as do final, como na cena da sentença no tribunal ou no encontro com a juíza, a narração encontra o equilíbrio que, se fosse mantido no livro por completo, teria tornado-o ainda melhor.

Minha última ressalva fica para a capa, que, para mim, poderia receber uma repaginada total, levando em consideração a quantidade de símbolos que poderiam capturar o olhar do leitor numa livraria facilmente; talvez uma imagem de um hábito de freira com manchas de sangue ou tantas outras. Se não conhecesse o vlog do autor previamente, talvez nunca tivesse me olhado mais atentamente o título e conhecer a sinopse, que por sua vez me levou a querer ler a obra.

Para os fãs de romances policiais, uma boa aposta de leitura, já disponível nas principais livrarias.



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