No meio de uma hegemonia clara de séries estadunidenses entre as mais populares, essa série produzida por Jullian Fellowes (de "A Jovem Rainha Vitória"), a série Downton Abbey conseguiu se destacar com elegância. Mas por que? Qual é a graça é de assistir o que se passa dentro de um casarão em que a maior intriga que poderia surgir, em teoria, eram as eternas tagarelices de senhoras bem-dotadas, zeladas em seu lar?

Muito mais do que se imagina, isso garanto.

Depois de diversas recomendações  e referências sobre a série britânica Downton Abbey que vi tanto em revistas quanto em sites e programas de TV, me senti na obrigação, quando as três primeiras temporadas chegaram no Netflix, de  me dar a oportunidade de conhecê-la.
No início do século XX, a família Crawley, regente do condado de Downton Abbey,  é atingida por uma notícia terrível: o navio Titanic havia afundado, e levado com ele, os dois herdeiros da extensa propriedade. Lorde Grantham então, dono de um casamento por dinheiro que acabou levando-o a se apaixonar verdadeiramente pela sua esposa, Cora, precisa preocupar-se em achar o próximo herdeiro da sucessão. O anterior, James e seu filho, Patrick - que era prometido à filha mais velha do casal, a impetuosa Lady Mary -, eram conhecidos de longa data da família, enquanto o novo, Matthew, é um jovem advogado que viveu em uma vida relativamente modesta em comparação com as extravagâncias dentro dos moradores mansão. Em contraste a realidade cheio de excentricidades dos andares de cima, nos corredores habitados pelos criados, novas intrigas e a possibilidade de servir a uma patrão desconhecido agitam ainda mais os embates sociais que se tornam cada vez mais aparentes.


Dentro das janelas de vidro devidamente fechadas e polidas - muito bem, por sinal, já que o mordomo Carson, responsável pela casa, não toleraria menos que perfeição -, na intimidade de uma classe social desgastada num sistema que cada vez mais a repele, dos senhores aristocráticos, herdeiros de uma nobreza já há muito esquecida. Nesta realidade que se apresenta no início do século XX, para manter tais títulos e propriedades já não é mais fácil assim; o nobre tornou-se também burguês e ferrenhos capitalistas (isto é, aqueles que conseguem se adaptar), agarrando-se às seus investimentos para manter seus state, de onde provém seu poder e posição.

Contudo, não é só isso: neste seriado temos uma vista ampla não só do lado mais conhecido - o dos reis, lordes e a elite -, mas também a da classe menos favorecida, a que levanta-se todo dia muito antes de seus patrões abrirem os olhos, para limpar os corredores por eles passam e ter certeza que tudo está devidamente servido - a dos criados.

Mesmo vivendo em realidades tão distintas, os habitantes da casa, uma semelhança vem para perturbar a todos: a nova presença de dois "intrusos" em seus meios sociais. A primeira é de Matthew, o novo herdeiro por sucessão, um primo distante da família que antes trabalhava como advogado na então classe média. A segunda é de Bates, um ex-soldado que manca pela perna machucada em guerra, onde conheceu Robert, o Lorde Grantham, amizade que lhe garantiu um emprego na casa dos Crawley. Ambos são considerados incapacitados para a função que lhes é imposta - para Bates, a de valete e para Matthew, a de herdeiro e fidalgo.






















Ressoando em nossos ouvidos a bela música instrumental ("Did I Make the Most of Loving You?") como tema de sua abertura, Downton vai encantando o espectador aos poucos, tocando seu espírito lentamente. Por isso, não espere por ser arrebatado longo dos primeiros minutos, já que a oportunidade de ir descobrindo lentamente os personagens é uma das suas melhores características.

A se dar exemplo Mary, a filha mais velha da família. Mesmo sendo a primogênita, por ser mulher é impedida de herdar diretamente o título e a propriedade, restando-lhe como única opção para tal  a de se casar com o herdeiro, como iria, isto é, se Patrick não tivesse falecido no naufrágio. O que assombra a todos, inclusive ela, é que, ao saber de sua morte, não sentiu-se tão pesarosa quanto os outros, e sim indiferente, desvendando o egoísmo e pragmatismo da personagem presente desde o início. Só que conforme o desenvolvimento dos capítulos progride, vemos que além de sua superfície mimada, há uma jovem mulher afetuosa e incerta de suas decisões, que por vezes esquece-se da sua sólida racionalidade e comete -  arriscados  - atos impulsivos. A dinâmica entre ela e Matthew é uma das principais da temporada, já que, por insistência da família principalmente, há a proposta de um matrimônio entre os dois para se manter a propriedade, um plano que não vai tão bem como o esperado...

O pano de fundo histórico é muito bem construído, passando por diversas esferas de comportamento e interação entre os personagens: com Lorde Grantham e sua mãe, Violet Crawley - interpretada brilhantemente pela Maggie Smith, mais conhecida nos cinemas como Professora Minerva, de Harry Potter -, duas figuras crescidas na nobreza, negando com todas as forças que o declínio absoluto de sua classe havia em fim, chegado. Com Thomas, um jovem ambicioso que trabalha como lacaio, nos deparamos com as limitações de uma sociedade extremamente fechada, o que o faz reprimir parte de si - sua homossexualidade - e descontar esse rancor, juntamente com O'Brien, a criada pessoal da Condessa. Unidos, eles são os principais antagonistas da temporada. Já com Sybil, a filha mais nova dos Crawley, descobrimos uma jovem que vai de só uma menina, um tanto apagada, com um sorriso gentil para uma defensora dos direitos das mulheres, sobretudo ao de votar. Ou Gwen (Rose Leslie, a Ygritte de Game of Thrones), agarrando-se a oportunidade de mudar suas condições de vida, feito que, no século anterior, teria sido quase impraticável para uma criada, e trabalhar como datilógrafa em Londres. Em suma, não há protagonista, coadjuvante ou até mesmo, breve convidado, que pise em Downton Abbey e não te deixe com vontade de conhecê-lo um pouco mais.

Não obstante, houve sim um atributo percebido constantemente que entortou um pouco o canto dos meus lábios até a chegada da season finale. Por vezes, nota-se um tom novelesco nas viradas entre acontecimentos, como em grande espasmos desnecessários para algumas situações, caminhando perigosamente perto de clichês, mas que, considerando a riqueza de detalhes no cenário e figurino, pode se equilibrar no todo. Os efeitos criam uma moldura esfumaçada na imagem, criando um aspecto quase sonhador, em meio aos tons vibrantes, que chega a importunar a visão certas vezes, mas que não dura muito.

E como eu sei? Bom, agora sou obrigada a confessar: já assisti as 3 temporadas, de uma vez só, no Netflix. Mas como não pretendo entregar tudo de vez, então aguarde pela próxima resenha da série em breve!


À finalizar, Downton Abbey é sem dúvida umas das melhores séries britânicas e dramas mundiais já produzidos até então. Uma série que você se apega a tal ponto - pela maravilhosa construção dos personagens - que deslizes são perdoados, tudo porque você continua ansiosíssimo para começar o próximo episódio. Seguindo a ordem cronológica, a primeira temporada tem seu desfecho com anúncio do início da Primeira Guerra Mundial, garantindo para todos, seja para os criados nos andares de baixo ou para os senhores e damas dos andares de cima, uma mudança inevitável para o mundo como eles conhecem.

Obs (atualização): A série também é recheada de participações especiais. Já na imagem ilustrativa podemos ver dois: Theo James (O Quatro de "Divergente"), que interpreta um jovem turco abastado que visita o casarão e se torna um interesse amoroso de Mary e Charlie Cox (O Demolidor, da série do herói no Netflix), um conde arruinado que busca as herdeiras Crawley como uma resolução para seus problemas financeiros e esconde seu caso com Thomas.




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