Mesmo conhecendo de longa data  (e gostando muito) os livros da Cassandra, até hoje não havia lido nada da Holly - apesar de que já tenho alguns livros dela na wishlist (entre os principais, "Gato Preto"). O que sabia sobre ela era: pelos comentários que via e ouvia por aí, ela é um autora incrível de fantasia. E amiga de longa data de Cassandra Clare, com quem desde do início de sua amizade sonhou em escrever uma história infanto-juvenil juntas. E o que posso dizer sobre essa parceria até agora é: funcionou tão bem que não dá para identificar quem escreveu o quê, ou quem contribuiu com o quê. Os estilos forma mesclados, imaginações voaram alto e o que achei do resultado, bom, você vai descobrir.


Callum Hunt devia ter falhado.

Vivendo toda sua vida ouvindo seu pai o alertando dos perigos da magia. De como os corredores das cavernas dos magos eram escuros e sombrios, cheios de criaturas malignas e perigos aterrorizantes, e aqueles que viviam nelas, pior ainda.
Mas não é como se tivesse muito tempo para pensar sobre o assunto: passava a maior parte dele fugindo dos seus colegas, enquanto arrastava com dificuldade sua perna manca pelo chão, o resultado de um acidente do qual nem se lembrava e o pai evitava comentar. Sua única defesa efetiva, a magia, era também sua regra mais enraizada: não devia nunca, em hipótese alguma, usá-la.

Até que chega o dia que nem seu pai pode evitar: o Desafio de Ferro. O dia em que todo filho de um mago ou criança que já apresentou alguma faísca de magia alguma vez em sua vida deve passar por uma série de testes, testes que definirão para sempre o seu futuro - se teriam ou não que passar a viver no colégio regido por eles, os magos elementais, o tão misterioso Magisterium. 

E contra toda as expectativas, mesmo tirando uma das piores notas da média, Callum passa. O que deve fazer agora? Fugir ou passar a conviver com aqueles que mais temera a vida inteira?

Informações:
Páginas: 384 | Editora: Irado, da NC (e vai passar a ser publicado no Brasil a partir desse ano pela Galera Record, da Record) | ISBN: 9788581635576


Dois fatores haviam me deixado receosa, antes de iniciar a leitura do livro, sobre a premissa de Magisterium: a primeira, pela magia desse universo ser centrada nos "4 elementos" - 5 nesse caso, por incluir o caos -, temática já desgastada na fantasia e que segue uma linha tênue entre o clichê e a renovação, colocando como um - bom - exemplo disso, a magnífica saga Avatar (a animação). A segunda, era outro ponto comum dos infanto-juvenis: o trio. Dois meninos, uma menina, mais frequentemente. Isso significa, prontamente, uma característica ruim para ser apontada? Não, absolutamente não. O meu medo era que Cassandra e Holly, duas autoras tão amadas da fantasia, decaíssem dessa vez com um livro generalizado e muito abaixo dos seus potenciais. Medo esse que se dissipou desde as primeiras linhas do eletrizante prólogo dessa história.

E não, para a preservação da sensação deliciosa de surpresa que lhes aguarda nessa leitura, não descreverei aqui o prólogo. O que eu digo sobre ele é que, desde desses primeiros parágrafos podemos começar a compreender por que Alastair é tão superprotetor com Call e tão odioso em relação aos magos. Além disso, recebemos também pistas-chave para montar o quebra-cabeça  que irá se revelar no desfecho.

“O Fogo quer queimar
A Água quer fluir. 
O Ar quer se erguer. 
A Terra quer unir. 
O Caos quer devorar.”

Dessa forma a dupla de escritoras Cassandra e Holly, trabalhando em perfeita sintonia, nos dão passagem para conhecer Call, o protagonista. Menino orfão de mãe, solitário e pouco atleta, ele, apesar de dar a primeira impressão que nos remete aos heróis comumente encontrados nos infanto-juvenis, se diferencia por sua personalidade por vezes mal-humorada, rancorosa e sarcástica. O que, para mim, tornou-o mais crível, considerando que, passando a vida inteira sendo motivo de chacota entre os as crianças da sua idade pela sua deficiência, e bom, seu gênio não muito fácil de lidar e ainda sendo criado num lar extremamente protegido pelo pai, única família que conhece, ouvindo seus resmungos sobre como os magos eram egoístas (inclusive culpando-os pela morte da mãe de Call), não é muito provável que resulte num menino altruísta e cheio de talentos.

O que, por acaso, é a imagem exata de Aaron,  outro do componente do trio de escolhidos para serem treinados pelo Mestre Rufus  (um dos mais desejados e concorridos de todo Magisterium) pelo olhar de Call. Otimista e sincero, Aaron se dá bem nos testes e faz amizades muito facilmente, mas quando se trata do seu passado, sempre dá um jeito de desviar a conversa. Para fechar o grupo, há também Tamara, uma menina dedicada que, diferente dos outros dois, aprende sobre como lidar com a magia desde pequena. Muito reprimida pelo pais, dois membros do conselho de magos, ela faz de tudo para deixá-los orgulhosos e tentar se equiparar à sua irmã mais velha, Kimyia, uma aluna exemplar alguns anos à frente. A dinâmica entre eles é preenchida por uma série de diálogos legítimos para verdadeiro adolescentes, garantido um ponto para as autoras por caracterização fiel e sentimentos sendo expostos lentamente, conforme vão se familiarizando uns com os outros.


Os três começam se estranhando bastante, principalmente Call com os demais, por não estar acostumado a ter de conviver tão proximamente a outros adolescentes como ele. Juntos, eles passam a ser treinados pelo Mestre Rufus como um trio, que, diferente de outros mestres - estes que levam seus alunos para explorar toda a caverna, aprender a voar e fazer malabarismos com fogo e água -, os obriga a aprender, digamos, de "grão em grão". Passam a saber mais sobre o passado dos magos elementares e o medo que se reverbera até os dias atuais e se faz sentir em cada corredor: o temor pelo Inimigo da Morte.

A única coisa que se põe entre uma possível nova Guerra dos Magos é a uma aliança frágil e desconfiada feita há anos atrás, quando tanto as forças dos Inimigo quanto as dos magos caiu. Agora, nesse clima de incertezas, todos esperam que outro Makar, um tipo de mago que, assim como o Inimigo da Morte, possui a habilidade raríssima de controlar o elemento do Caos. Mas sugiro que não tome nenhuma conclusão ainda; essa busca pode levar a algo mais inesperado do que se sugere.


Por fim, meu receio do início foi sanado: a série Magisterium tem suas características que a torna única em sua mitologia, narrativa e personagens. A utilização de seres elementares, retomadas de diversas mitologias e a ideia dos Devorados são pontos fortes ao longo do desenvolvimento do enredo. Algo que eu espero uma melhora, embora não tenha sido tão fatal em geral, foi a metodologia de ensino dos mestres, nisso eu acredito que H&C poderiam dar (ou ter dado) uma injetada de criatividade para torná-las mais emocionantes. Espero por ver também, nos próximos livros, mais participação dos outros personagens coadjuvantes (Jasper, Célia, Rafe, e outros) e observar melhor seus papéis na série.

A amizade do trio, que progride de forma sincera ao longo do livro, sobretudo ao final de Callum e Aaron é testada e promete gerar ainda cenas muito emocionantes e decisões nocivas. Recebemos uma profecia, do meio para o final, de causar dúvidas e arrepios, e não sei vocês, mas eu mesma comecei a fazer minhas próprias preposições sobre o seu significado!

O próximo livro já tem data de lançamento, com título original " The Copper Gauntlet" ("A Manopla de Cobre", em tradução livre), pela editora Record. Espero que eles possam manter a bela diagramação, mantendo esse padrão de capas baseadas nas originais - ilustrações de Scott Fischer -, e o preço, afinal, nunca faz mal um livro bom por preços acessíveis!



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