De todos os contos de fada, Cinderela é o mais antigo deles. Muito antes de Perrault e mais tarde os Irmãos Grimm inclui-lo entre suas coleções, já datava-se registros de uma variação dessa história na China de 860 a.c. 
A história do sapatinho, da madrasta e das irmãs malvadas, da carruagem-abóbora e da orfã maltratada é atemporal. E foi com ela que um jovem animador Walt Disney fez uma das primeiras adaptações do conto, criando um clássico da animação, e hoje, 65 anos depois, sua animação é reavivada para as telas em forma de live-action.
A pergunta é: será que essa nova adaptação deu conta de trazer para as telas novamente um dos contos mais amados da humanidade?
Bom, veremos. Pois dessa vez eles escolheram o meu conto de fadas preferido.



Informações:
Elenco: Lily James, Cate Blanchett, Richard Madden, Helena Bonham Carter
Direção: Kenneth Branagh | Duração: 105 min | Titulo Original: Cinderella | Roteiro: Chris Weitz

Nos últimos anos, a Disney tem criado e/ou produzido diversas releituras, a maioria seguindo a base das suas próprias animações - só para relembrar: "Espelho, Espelho Meu","Alice no País das Maravilhas" (que na verdade não é um conto de fadas, mas sim adaptação do livro infantil de Lewis Caroll) e o ainda ano passado, "Malévola". O que todas essas adaptações tinham em comum eram estas desviam o caminho audaciosamente das animações originais e buscavam criar suas próprias características, ressaltando nas protagonistas auras mais fortes e independentes - na maioria dos casos, de forma acertada nesse aspecto.

Esta não foi a escolha do diretor Kenneth Branagh com sua nova "Cinderela". Com uma infinidade de adaptações, talvez realmente este conto, para se dar um tom de inovação, fosse o mais desafiador. Basta se lembrar da inesquecível Cinderela interpretada por Drew Barrymore em "Para Sempre Cinderela" ou a representação juvenil de Hillary Duff em "A Nova Cinderela". Invés de tomar o caminho duvidoso, a Disney fez uma escolha: manter a essência da animação de forma enxuta, investindo pesado no elenco, nos efeitos especiais e no figurino.

Com uma talentosíssima Lily James, envolta num belo vestido azul - que levou mais 500 horas e 20 costureiros para ficar pronto -,  interpretando a versão doce da Cinderela, muito semelhante à da animação. A "peso-pesado" do panteão de grandes atrizes da atualidade, Catt Blanchet, interpretando a icônica madrasta e acrescentando, cheia de expressões, uma profundidade enorme à personagem que ouso dizer que chamou mais atenções que a própria protagonista. O ex-Robb Stark (Game of Thrones), completamente recuperado do Casamento Vermelho e aparentemente confortável em seu papel de príncipe  encantado - que sobreviveria dessa vez. Para completar, ainda tem a rápida aparição, mas ainda assim hilariante, da Helena Bonham Carter numa visão mais "glitterizada" da fada madrinha da Cinderela.










Tomando como comparação a versão de 2014 da Bela Adormecida, Malevóla, radicalmente modificada - para melhor, em minha opinião - Cinderela não oferece muito disto: segue-se o roteiro regular, da menina que perde seus pais muito jovem, é obrigada a viver com sua madrasta e filhas tiranas, trabalhando como empregada, até que um dia, com a ajuda mágica de sua fada-madrinha, encontra uma forma de ir para o Baile Real e acaba por conquistar o coração do príncipe com sua beleza e bondade. O sapatinho se perde. Ele o acha. E sai em busca do seu true love.
"Seja boa e tenha coragem" é a mensagem repetida pela princesa quase como um mantra, e adoraria ver, por exemplo, uma reflexão maior sobre as conotações sombrias escondidas dentro desta, ou ainda mais, uma mudança de atitude da princesa, mas não temos nada disso.

Em compensação, recebemos a magia incorporada nas cenas e dosagens ideais, o que muito era motivo de reclamação em Malévola, o seu exagero na montagem - indo desde fadas com aparências quase pitorescas até o traje de "luta" justíssimo da protagonista, que lembra mais Angelina como Tom Raider que qualquer outra coisa.  Nesta versão do conto clássico de Cinderela, mantém-se a magia onde ela pertence, entre a transformação inesquecível do vestido rosa feito em trapos até o azulado da fada-madrinha, seus ratinhos menos falantes e os outros animais do campo em serviçais, e a aboborá  em uma carruagem folheada à ouro - sem "bibidi bobidi bum", infelizmente.

Em suma, "Cinderela", de 2015, é um filme que remonta com sucesso a versão animada de 1950, mas não alcança o encantamento necessário para se tornar um filme marcante. Ainda assim não deixa de oferecer a qualquer criança (atual ou crescida) um sentimento nostálgico que muito sentimos falta.

Magia e bondade é o que não falta.



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