Para o século XXI, traição já não é mais uma temática tão incomum, tornou-se então, quase banal ;

Mas para a Europa do século 19, adultério não era só um crime oficial, mas como um estado máximo de degradação que uma mulher (sim, não os homens) poderia chegar. E foi com este tema que Gustave Flaubert chocou à França e ao mundo, com a publicação de  "Madame Bovary", que não só o levou à corte judicial de Paris, mas como também a posição de um dos autores mais renomados da história.
 "Sim, o sr. Flaubert sabe embelezar suas pinturas com todos os recursos da arte, mas sem a cautela da arte. Não há nele nenhuma gaze, nenhum véu, é  natureza em toda sua nudez, em toda sua crueza!" - Alfred Pinard, advogado imperial na acusação contra Flaubert.   
Quer saber o que achei desse eterno e lúcido clássico? Confira a resenha a seguir:







Diferente do que se faz pensar, pelo título, a história não começa pelos olhos da então Madame Bovary, mas sim, num colégio religioso, onde uma figura, um menino destrambelhado em sua puberdade, tenta manter em sua cabeça um boné de pano, em meio às zombarias dos colegas e a descriminação do professor; mantendo-se como tolo, apegado à ilusão daquele simbolismo. Este era Charles Bovary.

E pela toda vida, continuou-se a agarrar às ilusões, como no momento que, anos mais tarde, já formado em medicina e casado, deixou-se devotar-se por uma menina do campo, filha de fazendeiro e ainda mais fantasiosa sobre a vida que ele: sonhadora de amores perfeitos e fã de romances idealistas. Com a morte prematura da primeira esposa, a decisão não demora a vir; logo pede Emma em casamento e está torna-se, portanto, a sra. Bovary.

Mas a ilusão não tarda a se despedaçar; Emma percebe que aquela vida que sempre idealizara, não era nada senão, apenas um devaneio. Sua casa era simples; suas roupas, comuns; suas conversas com o marido, massantes; e seu casamento, o erro pelo qual mais se arrependeria em sua vida. 
Assim desejos de fuga, seja qual for, tomam-na por completo e acaba se tornando isca dos seus próprios sonhos e amores frustados.




























É através desse contexto que podemos compreender melhor o temperamento da protagonista. Durante toda a obra, é notável a capacidade de Gustave Flaubert de exercer com maestria o gênero no qual escreve: suas descrições são extremamente realistas,  ordenando desde os pensamentos mais ideológicos e bem-intencionados de seus personagens até a degradação destes, uma confusão de opiniões misturada com seus próprios egoísmos - que não é uma descrição perfeita da complexidade do próprio ser humano?
"A conversa com Charles  era [para Emma] sem relevo, como uma calçada e as ideias de todo mundo nela desfilavam com seu traje comum, sem excitar emoções, risos ou devaneio".
Contorna sua realidade tediosa almejando a vida que não tinha; primeiro ao dançar com o conde no baile Marquês d'Andervilliers - onde aliás se dá conta de como despreza seu próprio estilo de vida mediano -, depois caindo nos braços do ricaço e mulherengo Rodolphe; e ainda tornando submisso à ela o jovem escrevente (e tão fantasioso quanto ela), Léon. Seus vícios não se encontram apenas em seus apelos para com os amantes, mas também para sua vaidade, gastando sem perceber, toda a renda familiar - pobre de seu marido, pobre de sua filha então. Até mesmo em sua fé encontra uma nova fonte de obsessão para buscar incessantemente existências ideais, das quais nunca iria alcançar. 















E se "a conversa com Charles era um desfile de trajes comuns, sem emoção...", o desfile de personagens que o autor nos apresenta é sem dúvida admirável; não por seus feitos, não pelas suas crenças, mas pelas suas complexas mediocridades. Homais, um ambicioso e charlatão farmacêutico, que não se atém a expor suas opiniões que julga (por si mesmo) serem fruto da mais pura ciência e filosofia iluminista; sr. L’Heureux, um comerciante ligeiro e vigilante, que cobra suas dívidas tão rápido quanto as vende; a senhora  Tuvache, hospedaleira de mão-de-firme do Lion D'Our da pequena Yonville; e tantos outros . São todos eles que contribuem para a caracterização do romance, mesmo em detalhes.

Uma frase muito conhecida de Flaubert sobre a obra é a seguinte: "Madame Bovay c'est moi" - "Eu sou a Madame Bovary". Com isso não afirmava só sua dedicação completa ao construir a imagem de sua personagem, mas também mostrava o que ela representava. Não só um arquétipo de uma mulher inconformada com o seu matrimônio e suas limitações, Emma consegue ir bem além disso: ela, mesmo que inconscientemente, está dentro de todos nós. É o desejo desesperado de tornar nossas ilusões pré-concebidas sobre a vida reais, que uma hora ou outra, tem que ser confrontado com a realidade, muito mais dura.

Infos: | Editora: Abril Coleções | ISBN: 978-85-7971-000-1| Número de páginas: 444.

Descobri só um poucos antes de finalizar a obra um pouco que haveria mais uma adaptação de Madame Bovary (como se vê na imagem a linha do tempo das adaptações existentes até hoje e suas semelhanças). O elenco conta com a talentosa Mia Wasikowska (Alice no País das Maravilhas), ainda com os queridinhos dos fandoms, Erza Miller (As Vantagens de Ser Invisível) e Logan Marshall-Green (Prometheus). Estou torcendo que seja uma adaptação muito boa!


Então, já ouviram falar desse livro? Gostaram da resenha? Pretendem ver a adaptação?


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