A liberdade para transmitir informações e ideias por quaisquer meios independentemente de fronteiras (artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948).
 O ano de 2015 mal chegou - e entre tropeços pelo jeito - e um grande acontecimento, uma tragédia, marcou para sempre a história mundial, causando grande comoção. Na noite de 7 de janeiro, em todos os canais tudo que se via era a notícia do ataque terrorista ao jornal satírico francês, em plena Paris, Charlie Hebdo. Doze mortos e cinco feridos. Alguns dias depois, mesmo sobre toda tensão, um novo ataque: um mercado invadido e mais quatro mortos. 

"Liberté, Egalité, Fraternité" (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) gritaram naquelas mesmas ruas  na Revolução Francesa. Teriam eles imaginado que 226 anos depois o povo francês se levantaria mais uma vez, em luto, para clamar pela liberdade de expressão mais uma vez, segurando cartazes com os dizeres "Je suis Charlie" e canetas? Decerto que não. Mas o que assusta é que ainda é preciso.

A liberdade de expressão, direito assegurado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, nos dá o poder de manifestar nossas opiniões livremente, desde que não implique no direito de outro, resultando então num caso de difamação ou injúria. Tão simples, não? Percebemos a cada dia que não. Assim como a lei e a justiça, é provado que ela é subjetiva. Interpretável. Afinal, minha opinião pode não a mesma que a sua, mas você pode bem dizê-la, assim como eu, certo? Mas e quando sua liberdade de expressão implica no modo de vida de outro, na ideologia de outro?

E por isso que a Al-Qaeda, a conhecida organização terrorista reivindica ter planejado o ataque executado pelos irmãos Saïd e Chérif Kouachi, o estopim de toda tensão entre países e organizações no mundo inteiro e de infelizmente, crenças. A grande justifica para o massacre e todo terror empregado por estes grupos é que eles estariam  praticando o jihad - que para a religião muçulmana é representado pelo esforço ou empenho em nome da fé. Então para "se defender" contra as sátiras do jornal francês que se empreendeu o ataque, segundo eles.

Como se não fosse o bastante, surgem, a partir do ódio gerado pelos ataques, movimentos anti-muçulmanos em todo país. E eis mais um grande erro: direcionar à religião islâmica a responsabilidade pelo ataque, como se fosse a fé culpa por tal acontecimento. Mesmo depois de tantas lideranças do mundo islâmico se declarando contra o ataque, contra as organizações terroristas. "Nós percebemos a importância de nossa voz quando somos silenciados.", disse Malala Yousafi, a jovem patchum, ganhadora do Prêmio Nobel pela defesa da educação em seu país, o Paquistão. Muçulmana, ela defende a liberdade de expressão e as diferentes interpretações da sua própria, chegando a ter sido ela mesma vítima de um atentado que quase tirou sua vida.  Ela ilustra bem o que quero dizer: a ideia errônea de que o ato de alguns representam a opinião de muitos.E muitas vezes, tentando desesperadamente fugir de governos e grupos opressores, esses muçulmanos imigram para outros países. E quando chegam, se tornam alvo de desconfiança e preconceito. Ódio incitando mais ódio.

Não para por aí: dias atrás, com a nova capa do Charlie Hebdo, a edição pós-ataque tão comentada, exibindo uma imagem satírica do profeta dos muçulmanos, Mohammad, conhecido no Ocidente como Maomé segurando uma placa com os dizeres "Je suis Charlie"  e no topo, em francês, "Tudo está perdoado". Com isso, impulsionando críticas do mundo todo, principalmente dos líderes muçulmanos que outrora também se juntaram ao coro do "Je suis Charlie", porque na crença islâmica, representar o profeta é terminantemente proibido. A ação foi vista como uma provocação, levando milhares de muçulmanos saírem em protesto em países como o Egito, Filipinas e Arábia Saudita. E me pergunto porque, se é uma resposta aos grupos terroristas do Oriente Médio, fazer uma capa que não só atingiria à eles, mas à milhões de muçulmanos no mundo inteiro (21 a 23% da população mundial - cerca de 1,57 bilhão)? Mais uma vez, ódio incitando mais ódio.

Um conflito que deveria ter tido seu fim com o luto dos cartunistas, agora ganha proporções ainda maiores e promete alongar-se ainda mais. E a voz do respeito e a empatia, calada.

Então, qual é sua opinião sobre esse assunto? Comente e e diga aqui!


11 Comentários

  1. Hey Manu :)
    Esse é um assunto bem polêmico que vem sido repercutido mundialmente. Estou acompanhando pouco mas as vezes vejo alguma coisa.
    Abraço
    http://interessantedeler.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  2. Je ne suis pas Charlie (Eu NÃO sou Charlie), eu sou totalmente contra as charges que o jornal francês publicava, quem gostaria de ver sua religião sendo banalizada e esculachada em jornais e revista? Quem gostaria de ver o principal profeta da sua religião (Maomé) sendo desrespeitado publicamente? Quero que fique bem claro aqui que não sou a favor desses ataques, mas, vamos lembrar que a ideia de paraíso para eles é muito forte (74 mulheres virgens para serem desfrutadas e ao lado assistindo tudo, o profeta Maomé), e não admitem que desrespeitem sua religião nem ícones dela, liberdade de expressão existe, mas seus limites são extrapolados a ponto de atingir o próximo. Quem começou errando foi os cartunista e editores do Charlie Hebdo, não sei se chegou a ver os cartoons, mas se ver, irá realmente entender o porque disso tudo.

    Amei o post.
    Beijos.
    http://marcasliterarias.blogspot.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada Vini!
      O conflito deveria ter terminado de uma vez depois do massacre, publicar essa capa ainda mais ofensiva (e em maior escala) só piora a situação e faz inimigos onde antes havia aliados (representantes da fé islâmica e os próprios muçulmanos).

      Excluir
  3. A grande problemática é acerta dos limites da liberdade de expressão, há uma velha e boa frase que vem a calhar nesse caso: "o direito de um termina quando começa o do outro", a liberdade de expressão não é um direito absoluto como o direito a vida, a revista na minha opinião passou dos limites, e infringiu a liberdade dos religiosos, as sátiras passavam do limite do comum, da critica racional, e partia sempre para uma critica ácida e sem respeito ao sentimentos de tais religiosos. Já o problema dos terroristas é que combateram fogo com fogo, e na verdade sou a favor do controle de migração na Europa, a Europa está perdendo sua identidade cultural por haver uma invasão descontrolada de muçulmanos, não por passagem temporária, mas permanente, os muçulmanos tem seus próprios territórios.

    Boa discussão,

    Beijos

    {Blog Pensamentos Irreais}  {Twitter}   {Fan Page}


    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Com certeza, Jean! Só não concordo sobre a questão da migração: não é um direito nosso também de ir e vir? Não acho que a Europa vá perder tantos anos e anos de história só porque há muçulmanos morando lá. E se fosse assim, "cada um no seu território", como as pessoas haveriam de conhecer o mundo então? De compartilhar experiências e conhecimentos? Me preocupo mais é com a reação cruel que vem sido notada dos europeus em relação à esses muçulmanos imigrantes. Saem de seus países natal, na grande maioria das vezes para exatamente fugir do controle desses grupos extremistas e violentos e quando chegam, acreditando estar seguros, são vistos com desconfiança. E nem voltar podem; senão serão apontados como traidores.

      Excluir
  4. Olá Manu, em primeiro lugar, fico muito feliz quando encontro pessoas tão novas interessadas na escrita e, principalmente, na opinião de qualidade. Tenho um blogue de crônicas. Bem, um valor como a "liberdade" não se pode ter pela metade. Lembra-se de um filme antigo chamado "Ladyhawke, O Feitiço de Áquila"? (É dos anos de 1980. Se ainda não viu, procure.) Neste filme, há um casal enfeitiçado. Ele se transforma num lobo à noite e ela, num falcão, durante o dia. O casal não consegue se encontrar por mais do que alguns segundos, ao anoitecer e ao amanhecer, devido a essa transformação. Eles não têm liberdade porque quando um está livre (em forma de gente) o outro está preso (transformado em um animal). Trata-se de uma grande metáfora assim como deve ser toda boa história. Liberdade é isto: ou se tem ou não se tem. Adorei! Visite o meu blogue: www.andreferrer.wordpress.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá André,
      Muito obrigada!
      Na verdade nossa liberdade já é limitada, longe de ser plena, mas isso não significa que isso seja ruim; na verdade é benéfico. São as leis. Leis estas que diferenciam uma sociedade organizada de um completo caos. Por exemplo, se tivéssemos liberdade total, poderíamos, digamos, atirar em alguém sem sofrer consequências. Se ela não existisse, não poderíamos nem ao menos chamar os terroristas que atacaram o Charlie Hebdo de criminosos. Eles estariam isentos pela "liberdade total".
      No caso da liberdade de expressão, não acredito que deva se criar leis regulando-a, mas pela própria moral e educação que saibamos os limites. Os limites entre expor sua opinião e ofender à de outro. E assim, alcançar um patamar melhor de respeito; é essa racionalidade que nos diferencia dos restos dos animais.

      Excluir
  5. Hey, Manu!
    O problema é exatamente esse: as pessoas querem todo o seu direito de se expressar, mas sem respeitar o direito do outro. "Eu acho isso e acabou, problema seu se você pensa diferente". Não é assim mesmo? Não deveria ser, mas é. Não defendo o ataque ao jornal, muito pelo contrário, detesto violência e não acho que foi "bem feito". No entanto, eu entendo o motivo de isso ter acontecido. Zombar da fé dos outros é algo muito sério.

    Adorei o seu blog, parabéns!

    Beijo grande!

    www.oblogdasan.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada pela visita, que bom que você gostou do blog <3
      Concordo, é preciso saber reconhecer limites.

      Excluir
  6. Nem sei o que dizer sobre esses números, e um tanto me preocupa que o Charlie Hebdo permaneça com esses ataques? Já não estava bom o bastante? Não venho acompanhando com muita veemência esse caso, mas é impressionante ver como a mídia anda transmitindo uma imagem de pobres coitados aos cartunistas e colunistas do Jornal, e mais ainda sei, que ainda assim esse massacre - apesar de ser compreendido - não é em todo caso necessário, mas figura-se uma ideia de merecimento. Não sou a favor do massacre, mas entendo a parte daqueles que o idealizaram. Tive a oportunidade de olhar algumas charges publicadas pelo Charlie Hebdo e, nossa, todas elas sem exceção têm um caráter muito apelativo - leia-se macabro - acerca das temáticas abordadas. Trata-se não só de sátira, mas de humilhação, escória. Nunca fui uma pessoa muito religiosa, mas até mesmo eu me contive em certa indignação ao ver uma charge de penetração anal entre pai, filho e espírito santo. Não sei se esse tipo de coisa deveria provocar humor. Até porque se provoca, seria bom saberem: não tem graça.

    ResponderExcluir
  7. É um tema beeeem intenso esse. Primeiro quesito é a tolerancia, que quase ninguém hoje respeita mais a opinião do outro. Por outro lado, há a questão da liberdade de expressão mas desde que não fira/ofenda ninguém (o que não justifica NENHUM tipo de violencia, muito menos esse que houve). É complicado lidar com o ser humano.

    http://cantinadolivro.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir