Olá pessoal,

Além de filmes e séries, recentemente me tornei também uma grande fã de documentários! Sempre gostei de ver, mas em canais abertos como History Channel ou National Geographic, o horário não era muito ideal, ou como a maioria dos documentários é longo, parava de assistir para um descanso e não voltava mais para finalizar. Agora com o Netflix (tô falando tanto desse negócio nas postagens que ta aparecendo propaganda, credo haha...) to conseguindo iniciar e concluir todos e escolher especificamente os do meu gosto.


Para estrear escolhi o documentário "Good Hair", do comediante Chris Rock (participou da série Todo Mundo Odeia o Chris e também é conhecido pelos filmes Gente Grande 1 e 2 e O Que Esperar Quando Você Está Esperando), em que ele tenta desvendar, através de uma visão cômica mas também crítica a obsessão pelos cabelos alisados, colocando em foco as mulheres estadunidenses.

O documentário começa com uma pequena introdução do autor, seguida de uma pergunta inocente, feita pela filha (muito fofa) do ator que dá início a todo questionamento:
"Papai, por quê eu não tenho cabelo bom?"

E é exatamente isso: O QUE É CABELO "BOM"?
Chris Rock, disposto a tentar formular a melhor forma possível de responder a pergunta da pequena, vai em busca de diferentes tipos de especialistas e opiniões: desde cabeleireiros até químicos.

Algo a se relembrar logo, é que apesar dessa questão ser muito semelhante dos EUA em comparação ao Brasil, a noção do "ser negro", "ser afrodescendente" lá é bem mais diferente. Aqui no Brasil temos uma profunda miscigenação: quase metade da população é negra ou mestiça e é realmente difícil achar alguém que não tenha o mínimo de "miscigenação", por mais "branquelo" que seja, na árvore genecológica. Eu pessoalmente acho isso uma característica linda do povo brasileiro, mas voltemos ao assunto; nos EUA não é bem assim. Apesar de ter havido sim miscigenação e negros escravizados no país, a população negra realmente representa uma minoria: apenas 14% da população. Por isso que há tanta estranheza para brasileiros (e para muitas pessoas do mundo inteiro aliás) quando chegam nos EUA e há toda uma identificação "negra" no país, como uma característica muito forte, abrangendo toda uma cultura e comportamento.

A busca pelo cabelo perfeito se torna tão incessante que um grupo de empresas de cosméticos capilares criou a "Barnum Brothers Hair Show" em Atlanta, uma grande feira que empresas grandes e pequenas do país juntam-se para vender seus produtos enquanto acontece uma grande competição entre cabeleireiros, mostrada no filme de forma bem divertida. Lá encontra-se acessórios, cremes, químicas, shampoos para tudo - menos para o cabelo natural.

Através das câmeras guiadas pelo ator, conhecemos mais sobre essa realidade: nos EUA, apesar de dessa pequena porcentagem de 14%, é a população negra (predominantemente as mulheres) a maior consumidora dos produtos capilares do país, 87%! Uma estática de assustar, não é mesmo? Dentro disso milhares de indústrias lucram milhões todos os anos com a produção de produtos para cabelo, químicas  pesadas para alisar, comércio de apliques (envolvendo toda uma rede global, da Ásia até a América) e perucas.
Voltamos com ele na história, o nascimento do problema: a ditadura da beleza.  Mesmo com o fim da escravidão, a opressão da cultura e beleza negra não havia terminado. Mulheres negras eram coagidas pela sociedade a esconder seu cabelo "sarará" porque não era aceito como deveria pela classe dominante branca. Esconderam-o com perucas e mais tarde, com os novos (e perigosos) métodos químicos assim como temos hoje - relaxer - também conhecido como no Brasil progressiva ou relaxamento.
Somos levados a entrar profundamente no mundo dos cabelos alisados: apresenta-os desde dos primórdios da produção e teste químicos sobre substâncias comuns encontradas na progressiva. Descobrimos que uma dessas substâncias usadas na progressiva, o hidróxido de sódio, é um ácido forte o suficiente para desintegrar em poucas horas uma lata de refrigerante (imagina-se o que se pode se fazer com a carne humana no processo de alisamento?...) e que os especialistas nas fábricas das químicas das grandes indústrias capilares evitam aproximar-se do produto - só ficar tempo o suficiente respirando-o é prejudicial á saúde e uma gota que caia nos olhos, com toda certeza, pode cegar uma pessoa.
Não só o mundo das progressivas, definitivas, relaxamentos, etc, mas como também os famosos substitutos das perucas: os apliques e mega-hairs. Assim como a indústria das químicas capilares, o mercado desses produtos movimentam milhões nesse mercado todos os anos. Para esclarecer todo o mistério sobre esse misterioso cabelo, que muitas pessoas desconhecem a origem (o tipíco "Como assim o cabelo dela cresceu assim da 'noite para o dia'?"), Chris Rock vai até a Índia (Ásia), uma das principais fontes de cabelo HUMANO (há também os sintéticos e animais...) para apliques/mega-hairs. O mistério é resolvido: o cabelo vêm de templos religiosos que vendem os cabelos de meninas cortados durante um ritual. E assim fica todo mundo bem feliz; a menina sente-se aliviada por livrar-se de tamanha "vaidade", que rapidamente vai crescer novamente, e lá nos países ocidentais as mulheres sentem-se aliviadas por finalmente ter o novo tufo de cabelo preso fortemente - estragando terrivelmente - ao cabelo natural. Acaba que nenhuma delas é o indivíduo mais alegre nessa transição, é todos aqueles - cabeleiros, templos e vendedores - que recebem uma leva de dinheiro bem generosa no bolso por alguns fios de cabelo "dos outros".
Devo também elogiar a imparcialidade, apesar de tudo, do comediante na direção do documentário. Reuniu vários entrevistados para opinar: os adeptos a química, mega-hairs e chapinhas  (em predominância mulheres) em oposição aos (poucos) que abraçam a forma natural do seu cabelo (em predominância homens), além de especialistas na área essenciais para um maior entendimento do assunto. São perguntas feita com muito bom-humor e simpatia pelo apresentador, mas que de fato têm um fundo muito mais complexo. Até mesmo um antigo amigo do já falecido cantor americano James Brown, outro que juntou-se á moda dos alisantes e convenceu o amigo, até atrizes famosas atualmente como Raven-Symoné e Nia Long, falando um pouco das suas experiências. Chega mesmo a ir numa barbearia para perguntar a opinião masculina sobre o assunto.

Mas de vários depoimentos, um é 100% comprovada:

Ice-T: "...trust me, if a woman ain't happy with herself, she's going to bring nothing but pain to every f'ing body around her." ... Confie em mim, se uma mulher não está feliz consigo mesma, ela não vai trazer nada mais que dor para todos em volta dela.
E dentre as conclusões finais dos entrevistados, a frase da atriz Tracie Thoms (acima) foi sem dúvida minha preferida:
"Natural hair is freedom"
Cabelo natural é liberdade

Uma sentença tão simples, mas de significado devastador. Tanto que foi em mim o impacto final para chegar a minha própria conclusão pessoal: eu quero meu cabelo natural de volta. Para quem não sabe ou nunca percebeu, meu cabelo não é liso natural (já citei em outras postagens), eu faço - fazia - progressiva. Passei 4 anos nisso não porque eu "queria ter cabelo liso" de fato. Nunca quis na verdade, queria, como toda criança, só se divertir sem sofrer abusos dos coleguinhas. Antes da progressiva, meu pai me levava para fazer relaxamento, para soltar os cachos - tradução: tirar o volume. Eu sou uma prova que muito dito no documentário se concretiza na vida real, porque eu mesma vivi isso: a pressão de se seguir um padrão, olhar em volta e ver que seu cabelo não é semelhante as das suas amigas e é tratado, na maioria das vezes, com olhares tortos. Hoje a ideia de se voltar ás raízes é mais forte (acredito que mais aqui no Brasil que nos EUA), mas só a perspectivava de ter de volta a liberdade  - a liberdade de sair faça como bem quiser, faça sol ou faça chuva, ir na praia, na piscina, acordar sem estresse para arrumar as madeixas ou se livrar da dor da química ou em outros casos, do mega-hair - já é animadora o suficiente. Estou oficialmente em transição capilar.

Recomendo a todos assistir esse documentário, pode ser bem esclarecedor(e não é nem um pouco chato!). Não deixe de comentar sua opinião aqui, quero saber o que pensam sobre o assunto!




7 Comentários

  1. Parabéns pelo post!
    Adorei mesmo ;)

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  2. Parabéns pelo texto,realmente o documentário explora de forma divertida este assunto que nao é de todo "leve".

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    1. Muito obrigada pela apreciação! Com certeza, parece um assunto tão insignificante, mas quando vimos seu peso social, percebemos o quanto pode influenciar a vida de uma pessoa.

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  3. Olha, que dica boa! Também sou viciada em séries e filmes, agora você me despertou a curiosidade com documentários também! Nunca tinha ouvido falar sobre esse, e é mesmo bem interessante. Adorei sua resenha, foi bem detalhista e apresentou de forma bem clara o que o programa retrata :D

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
    Tem resenha nova de "Fangirl" no blog, vem conferir!

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  4. Parabéns pelo post! Eu tb adoro esses documentários! Mas o tempo pra assistir é tão pouquinho :/
    http://mundoemcartas.blogspot.com.br/

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  5. Oi Manu! Nunca tinha ouvido falar, mas achei muito interessante.
    Assim que tiver um tempinho sobrando tentarei assistir :D
    Grande beijo ♥

    Thati;
    http://nemteconto.org

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